VIDA MONÁSTICA

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Hoje não é a carência do convívio social que impele o homem ao refúgio, mas a sua exuberância. A excitação, o barulho, a agitação febril, a exterioridade e a multidão, ameaçam a interioridade do homem; falta-lhe o silêncio com a sua genuína palavra interior, falta-lhe ordem; falta-lhe oração, falta-lhe a paz, falta-lhe ele mesmo. Para reaver o domínio e a alegria espiritual de si, ele tem necessidade de voltar ao claustro beneditino.

E o homem recuperado de si mesmo pela disciplina monástica, é recuperado para a Igreja. O monge tem um posto de escol no Corpo Místico de Cristo, uma função muito providencial e urgente. Isto vo-lo dizemos experimentados e desejosos como estamos de ter sempre na nobre e santa Família Beneditina a guardiã fiel e zelosa dos tesouros da tradição católica, a oficina dos estudos eclesiásticos mais pacientes e severos, um lugar onde se exerçam as virtudes religiosas, e, sobretudo, a escola e o exemplo da oração litúrgica, que apraz-nos saber mantida sempre por vós, Beneditinos de todo o mundo, em altíssima honra, e que, esperamos continuará a ser, como convém a vós, nas formas mais puras, no canto sacro e genuíno, e para o vosso ofício divino, na sua língua tradicional, o nobre latim, e especialmente no seu espírito místico e lírico.

Diante de vós, tendes uma tarefa grande, magnífica; a Igreja de novo vos coloca sobre o candelabro, para que saibais iluminar toda a "casa de Deus" à luz da nova pedagogia religiosa que a Constituição Sacrosanctum Concilium tenciona instaurar no povo cristão; fiéis às venerandas e antigas tradições, e sensíveis às necessidades religiosas do nosso tempo, tornar- vos-eis uma vez ainda beneméritos por haver introduzido na espiritualidade da igreja a vivificante corrente do vosso grande mestre.

Bem-aventurado Paulo VI, Papa
Discurso por ocasião da Dedicação da Basílica Abacial de Montecassino
24 de outubro de 1964

ORA ET LABORA

Eis o antigo e glorioso lema dos monges: “Oração e trabalho!” A obra de Deus e a obra do trabalho, tais são as duas formas de nossa santa servidão, prefiguradas por Maria e Marta; tais são as duas asas que sustentarão nosso voo para a mais alta perfeição. Submetido à enfermidade desta vida mortal, o monge não pode ainda ficar unido ao Soberano Bem por uma oração ou uma contemplação contínua. Por isso a ação deve sabiamente dividir a oração, a fim de que esta, sempre revigorada por aquela, lhe proporcione por sua vez um aumento de bênçãos. De maneira que far-se-á, sem nenhuma dúvida, que a alma purificada pelo trabalho encontrará na meditação mais santas luzes, e na oração uma união mais íntima com Deus.

Além disso, ouçamos esta advertência do laborioso Apóstolo: “Se alguém não quiser trabalhar, também deixe de comer” (2Ts 3,10). – Eis porque “não temos comido de graça o pão de ninguém; mas, com trabalho e fadiga, labutamos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós” (2Ts 3,8).

Muito pelo contrário, o trabalho assíduo expulsa os vícios; ele produz e salvaguarda as virtudes, ele o enche de honra, de alegria e de méritos. Pois “a alma daqueles que trabalham será saciada” (Pr 13,4); e “aquele que semeia” no momento de seu labor, “virá com alegria carregado com seus feixes” (Sl 125,6). Eis esta rica messe de um industrioso trabalho: a luz da inteligência, a paz e a confiança tranquilas do coração; a união fraterna e a caridade. Por causa disso não há nada de mais amável que o monge laborioso, não há nada de mais agradável, de mais sereno, de mais feliz.

LECTIO DIVINA

Não são poucos os que defendem que o lema dos monges deva ser: Ora, legere et labora, tamanha é a importância que a leitura espiritual desempenha na vida monástica. Essa é uma leitura que se faz sozinho, na intimidade. São Bento a encara desta maneira, visto que prescreve dar-se um trabalho leve, não muito cansativo, aos que são incapazes de se consagrar à leitura, e recomenda que “se designem um ou dois dos [irmãos] mais velhos, os quais circulem no mosteiro nas horas em que os irmãos se entregam à leitura e verão se não há, por acaso, algum irmão tomado de acédia, que se entrega ao ócio ou às conversas, e não está aplicado à leitura e não somente é inútil a si próprio como também distrai os outros” (RB 48,17-18).

A leitura é uma atividade sagrada, sacra lectio: tem por finalidade primordial, a aquisição não de uma ciência, mas de uma sabedoria; consiste em concentrar toda a atenção da alma no texto, para lhe saborear a essência e despertar o desejo de Deus, para tentar chegar à compreensão plena da mensagem que o autor aí colocou. A leitura monástica é uma leitura rezada que desemboca na contemplação. Os medievais falaram de “oração meditativa”: o monge fica sozinho com o seu texto diante de Deus; é livre para se deter, quando deseja, numa palavra, num pensamento; retoma a leitura quando o fervor da alma começa a decrescer. Ele é bem mais livre do que nas leituras feitas a toda a comunidade, e a sua oração adquire, por conseguinte, caráter mais espontâneo, enriquecida do que ela própria recebeu pela audição da Bíblia. O monge assimila as palavras da Sagrada Escritura e nela repousa para melhor viver, em seguida, a realidade da própria oração.

Não é suficiente ouvir, ler, saborear a Palavra, mas é preciso pôr em prática na vida o que assim se recebeu. São Bento crê na eficácia da Palavra de Deus. Munido com ela, o monge combate e trabalha a fim de inseri-la na vida, apoiado na força de Deus. Anda em direção à Luz cuja a aurora já se lhe desponta.