VIDA MONÁSTICA

photoVer Galerias

Hoje, não é a carência do convívio social que impele o homem ao mesmo refúgio, mas a sua exuberância. A excitação, o barulho, a agitação febril, a exterioridade e a multidão, ameaçam a interioridade do homem; falta-lhe o silêncio com a sua genuína palavra interior, falta-lhe ordem; falta-lhe oração, falta-lhe a paz, falta-lhe ele mesmo. Para reaver o domínio e a alegria espiritual de si, ele tem necessidade de voltar de novo ao claustro beneditino.

E o homem recuperado de si mesmo pela disciplina monástica, é recuperado para a igreja. O monge tem um posto de escol no Corpo Místico de Cristo, uma função muito providencial e urgente. Isto volo dizemos experimentados e desejosos como estamos de ter sempre na nobre e santa Família Beneditina a guardiã fiel e zelosa dos tesouros da tradição católica, a oficina dos estudos eclesiásticos mais pacientes e severos, um lugar onde se exerçam as virtudes religiosas, e, sobretudo a escola e o exemplo da oração litúrgica, que apraz-nos saber mantida sempre por vós, Beneditinos de todo o mundo, em altíssima honra, e que, esperamos continuará a ser, como convém a vós, nas formas mais puras, no canto sacro e genuíno, e para o vosso ofício divino, na sua língua tradicional, o nobre latim, e especialmente no seu espírito místico e lírico.

Diante de vós, tendes uma tarefa grande, magnífica; a igreja de novo vos coloca sobre o candelabro, para que saibais iluminar toda a "casa de Deus" à luz da nova pedagogia religiosa que a referida constituição tenciona instaurar no povo cristão; fiéis às venerandas e antigas tradições, e sensíveis às necessidades religiosas do nosso tempo, tornar-vos-eis uma vez ainda beneméritos por haver introduzido na espiritualidade da igreja a vivificante corrente do vosso grande mestre.

ORA ET LABORA

Daí este antigo e glorioso lema dos monges: “Oração e trabalho!” A obra de Deus e a obra do trabalho, tais são as duas formas de nossa santa Servidão, prefiguradas por Maria e Marta; tais são as duas asas que sustentarão nosso voo para a mais alta perfeição. Submetido à enfermidade desta vida mortal, o monge não pode ainda ficar unido ao Soberano Bem por uma oração ou uma contemplação contínua. Por isso a ação deve sabiamente dividir a oração, a fim de que esta, sempre revigorada por aquela, lhe proporcione por sua vez um aumento de bênçãos. De maneira que far-se-á, sem nenhuma dúvida, que a alma purificada pelo trabalho encontrará na meditação mais santas luzes, e na oração uma união mais íntima com Deus.

Além disso, ouçamos esta advertência do laborioso Apóstolo: “Se alguém não quiser trabalhar, também deixe de comer” (2Tes 3,10). – Eis porque “não temos comido de graça o pão de ninguém; mas, com trabalho e fadiga, labutamos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós” (2Tes 3,8).

Muito pelo contrário, o trabalho assíduo expulsa os vícios; ele produz e salvaguarda as virtudes, ele o enche de honra, de alegria e de méritos. Pois “a alma daqueles que trabalham será saciada” (Pr 13,4); e “aquele que semeia” no momento de seu labor, “virão com alegria carregado com seus feixes” (Sl 125,6). Eis esta rica messe de um industrioso trabalho: a luz da inteligência, a paz e a confiança tranquilas do coração; a união fraterna e a caridade. Por causa disso não há nada de mais amável que o monge laborioso, não há nada de mais agradável, de mais sereno, de mais feliz.

LECTIO DIVINA

É uma leitura que se faz sozinho, na intimidade. São Bento a encara desta maneira, porquanto prescreve dar-se um trabalho leve, não muito cansativo, aos que são incapazes de se consagrar à leitura, e que, diz, “se terá o cuidado de nomear um ou dois anciãos que serão encarregados de percorrer o mosteiro às horas em que os irmãos estão ocupados na leitura e vejam se não encontre por acaso algum irmão preguiçoso que, em vez de se aplicar à leitura, se entregue à ociosidade ou as conversas frívolas e, portanto, não só tem proveito para si mesmo, mas ainda dissipa os outros.

A leitura é uma atividade sagrada, sacra lectio: tem por finalidade primordial, a aquisição não de uma ciência mas de uma sabedoria; consiste em concentrar toda a atenção da alma no texto, para lhe saborear a essência e despertar o desejo de Deus, para tentar chegar a compreensão plena da mensagem que o autor aí colocou. A leitura monástica é uma leitura rezada que desemboca na contemplação. Os medievais falaram de “oração meditativa”: o monge fica sozinho com o seu texto diante de Deus; é livre de parar, quando deseja, numa palavra, num pensamento; retoma a leitura quando o fervor da alma começa a decrescer. Ele é bem mais livre do que nas leituras feitas a toda a comunidade; e a sua oração adquire por conseguinte, caráter mais espontâneo; enriquecida do que ela própria recebeu pela audição da Bíblia, lê ainda um texto escrito que lhe fala de Deus com palavras da Sagrada Escritura; assimila esta e nela repousa para melhor viver, em seguida, a realidade da própria oração.

Não é suficiente ouvir, ler, saborear a palavra, mas é preciso por em prática na vida o que assim se recebeu. São Bento crê na eficácia da Palavra de Deus. Munido com a Palavra de Deus, o monge combate e trabalha afim de a inserir na vida, confiante na eficiência e apoiado na força de Deus. Anda em direção à Luz cuja a aurora já lhe desponta.