OFÍCIO DIVINO

O mosteiro é a família de Deus, e o monge seu filho adotivo. “Não lhe é preciso estar antes de tudo ocupado das coisas que cuidam seu pai” (Lc 2,49), quer dizer no oratório, no côro? Se todo o resto, no mosteiro, se faz em comum, seria digno e justo realizar a obra principal à parte e privado? Mas é precisamente em vista de desempenhar-se dignamente este ofício, que os monges abandonaram o mundo, e se agruparam em um corpo místico.

Portanto, eu vos rogo irmão bem-amado, considerai a razão de ser, o fruto e a virtude da oração comum.

Tudo aplicado ao serviço do Senhor, vós recitareis nitidamente, claramente e distintamente as palavras do ofício, em honra do Verbo incarnado, do qual emana toda verdade. De maneira que, se vós saboreares o sentido íntimo das palavras, vosso coração será todo inundado de uma luz e de uma unção celestes.

Tanto na salmodia quanto no canto sacro da Igreja, que vossa alma concorde com vossa voz e vossa voz com vossa alma. “Possa vossa voz ressoar aos ouvidos do esposo de maneira que Lhe pareça doce e para mostrar vossa face, – isto é vossa alma – agradável a seus olhos (Ct 2,14)”. – Possam vossos hinos sacros ser um eco das castas melodia dos anjos, para vossa própria edificação, para a de vossos autores, para dirigir docemente para Deus tanto os sentimentos quanto os corações. – É assim que se “salmodia com sabedoria”, e que se canta no temor e na alegria, na simplicidade e na pureza do coração, com reverência, humildade, lágrimas e compunção.

Oh! Quanto vós seríeis feliz, se se pode vos conceder este louvor: “Eis um verdadeiro adorador de Deus; de todo seu coração, ele louvou o Senhor, deu esplendor às festividades e amou Deus seu Criador (Eclo 47, 10-12)”.

Mas a obra de Deus não consiste exclusivamente no ofício divino. Este, pode- se dizer, é como um precioso estojo, que contém um tesouro mais precioso ainda, ou melhor como uma radiosa coroa, rodeando o disco luminoso do sol, foco de todas as luzes e de todas as chamas.